A ARTE DO RAP ESCOLAR

Só a realidade constrói um senso crítico indestrutível. Alguns sentem na pele, outros nos versos. O importante é sentir e buscar uma vida mais digna para todos. Raps baseados em “A vida é desafio”, de Racionais MC’s, acompanhado de vocabulário.  

 


O caminho

Da felicidade ainda existe,

É uma trilha estreita

Em meio à selva triste.

(Racionais MC’s)

 

 

   

CIDADE SINISTRA

 

Gabriel Felten

Josué Rodrigues

Jhonny Galiotto

Keyllor Domann

Lauria C. Stoll

Ricardo Bittelkon

 PM - Cidade Sinistra

 

A cidade é sinistra na madrugada,

O cara surge do nada como um fantasma

E vende droga lá na quebrada.

Malandragem, um “plim”, só pra mim,

Loucura pra suportar a indiferença,

Promessas incertas, desavenças...

Tanta miséria faz mal,

Esse é o mundo irracional.

O mano fuma uma pedra

E fica em ação, mas tem reação.

Ele entra numa de contravenção,

Porque na escravidão

Só há escuridão.

No beco sem saída,

Não tem volta, só ida.

Pense antes de usar,

Se alguém lhe oferecer,

Manda se ferrar.

Se liga meu irmão,

Seu destino é a prisão.

Com a Bíblia na mão,

Você me diz que encontrou Deus,

Mas por que você se perdeu?

Por que não venceu com a mente,

Toda a injustiça diretamente.

“Eu sou guerreiro e vou falar,

Na minha não cola, porque se pá.

Não tem essa de ser tolerante,

Muito menos irrelevante”.

Não preciso ter o carro do ano

E achar que a vida foi um engano.

Quando se perde um amigo ou parente,

Infelizmente quem chora é a gente.

A cidade é sinistra na madrugada,

Entre estrelas e velas, muita cautela.

Os inimigos andam pelas vielas,

Vultos encurralados nas janelas.

Se eles o veem, embora correr,

Se eles o pegam, o condenado é você.

A morte surge em cada encruzilhada,

Dama do desejo, da necessidade,

Encomendada, Dama maltratada.

Ela caminha pela multidão,

Destrói como um furacão,

Coisas do nosso tempo sangue bom.

“Eu sou guerreiro e vou falar,

Na minha não cola, porque se pá.

Não tem essa de ser tolerante,

Muito menos irrelevante”.

Não quero me iludir ou mentir,

Não quero ver o meu sonho diluir,

Não quero ver o meu povo sofrer,

Não quero ver o meu povo morrer.

 

 

 

ANJO MARGINAL

 

Ângela Schnem

Angélica Mendonça

Fernanda Guimarães

Lauria C. Stoll

Vitória dos Santos

 

 

Eu cresci numa favela,

Onde a desigualdade social

Corta como o punhal,

Ensanguentando

Meu verso descomunal.

Vou dar a letra, morô! Esquematizo!

Os manos entram numas erradas

Por ódio, mulher, vício, ambição...

Impera a lei do mais forte, a sorte.

Disfarce no rosto, arma na mão,

Na lábia só tem confusão,

Mau exemplo, sedução...

O Bem é a solução,

Esquema X pra ser feliz.

Mais um baque, um tum,

Chegou o século 21.

Pois é, o tempo passa,

Globalização, Monetização,

Informação, Revolução Digital...

É guerra na terra, lei animal,

Nada passa batido,

Mais um inocente punido.

Tá me tirando? Eu tô aqui planejando.

Os vilões chegam juntos,

No barraco tem três defuntos.

O Zé deixou quatro filhos,

A Maria nunca fez mal a ninguém,

O Pedro cuidava da mãe doente.

Quem foi que embaçou o mandamento?

Brincou de Deus com o julgamento?

Será que vai ser sempre assim,

Uma treta impiedosa sem fim?

“Melhore a cena, o astral,

Eu sou um anjo mental,

Eu sou um anjo verbal,

Eu sou um anjo real”.

Vivo observando

E vou apaziguando...

Sempre tenho esperança

E acredito na mudança.

Sei que pra acontecer,

É preciso ter coragem e fazer.

Pro nosso futuro se ajeitar,

Boa vontade não deve faltar.

Vamos agir com união

E não deixar o individualismo,

O comodismo, o abismo...

Tomar conta do coração.

A vida é um desafio constante,

Os manos vacilam a cada instante.

A sociedade insensível rotula,

O garoto rico está estudando

E tem todas as chances do mundo.

Já o moleque pobre está perdido

E vai virar bandido.

Sentiu o drama?

Hoje é fim de semana!

Então quero mais amor,

Quero a amizade dos irmãos,

Quero ver a paz progredir,

E não deixar a violência destruir.

“Melhore a cena, o astral,

Eu sou um anjo mental,

Eu sou um anjo verbal,

Eu sou um anjo real”.

Se eu não consegui,

Pelo menos não desisti.

 
 
 
APRENDIZ  DE SONHADOR

 

Eduarda Blum

Lauria C. Stoll

Mônica Woichekoski

Nathália Romero

 

Bom dia!

Amanhece mais uma vez,

Mudez, Rapidez, Talvez...

Olho o morro escondido,

Atrás da rua de chão batido,

Faz muito calor no gueto,

O pivete de chinelo de dedo

Toma banho no córrego fedorento.

São sete horas da manhã,

Já faltou tudo por aqui:

Água, luz, feijão com arroz...

O que virá depois?

O bebê tá desnutrido,

Meu irmão morreu ontem,

Confundido com um bandido,

Tinha o mesmo apelido.

Minha mãe é empregada doméstica

Na casa de alguns bacanas,

Trampa duro toda semana.

Meu pai tá desempregado

E cura mais uma ressaca,

A vida pra ele já não tem graça.

Quero gritar, tenho um nó na garganta.

O sonho parece um labirinto,

As metas devem ser alcançadas.

O mal-estar é inimigo da caminhada,

A passagem do tempo só assusta,

Nada muda, é mais um dia de labuta.

Levanta! Toma a bênção e anda.

“Engole a dor, engole o choro,

Seja atriz na selva de giz

Aqui, cada um é aprendiz”.

Engolir a raiva vira alvo de sobrevivência,

Simpatia é norma de convivência,

Aceitar a injustiça se torna obrigação,

Confiar em Deus não é mais uma opção.

Valorize a sua origem e o seu caráter,

A cor da pele é só um detalhe

Pra quem acredita na verdade.

Branco, Negro, Amarelo...

O Brasil é miscigenação,

Mas por que há tanta discriminação,

Preconceito entre os irmãos?

Quando a oportunidade não existe,

A realidade vira um enredo triste.

Meninas se prostituem por dinheiro,

Nas ruas imundas perto do aterro,

Não falta táticas pras minas usar,

Um aborto elas sempre podem arranjar.

Tá osso, isso rima com desgosto.

Saia curta, salto alto, maquiagem no rosto...

Tudo pra chamar atenção dos clientes

Que adoram sacanagem e ostentação.

Na balada é pura vibração,

A droga dança no salão,

DJ K solta o som.

Lá tá o cara fissurado em academia,

Maromba! Vivendo de chiclete e bomba.

A caranga do monstro tem vidro fumê,

Camufla qualquer coisa pra ninguém vê.

Chega aí, vamô dá um rolê!

Depois disso tive um mau pressentimento,

Mais uma vítima de um desejo violento.

Seu nome era Gabriela,

As amigas não falam mais dela.

Alguém sempre tira vantagem,

Tá ligado na mensagem.

“Engole a dor, engole o choro

Seja urgentemente feliz,

Pois aqui cada um é aprendiz”.

Calma aí! Se liga truta!

Você só precisa fazer direito,

Ter respeito por si mesmo,

Ter esperança no futuro,

Mesmo que ele seja obscuro.

 

 

 

A VIDA É UMA SÓ.

 

Djeison Koren

Eduardo Preuss

José Fin

Lauria C. Stoll

Matheus Koren

Patrick Lorenzão

 

Minha história é desafinada,

Sem eira nem beira,

Às vezes a gente faz besteira.

Vai, vai trabalhar vagabundo,

Seja alguém na vida,

Não um sonhador

De causas perdidas.

Sempre tive planos,

Queria ser médico,

Mas não terminei

O Ensino Médio.

Nada me animava,

Minha família me ajudava,

Mas eu não ligava

Nem me importava.

Só queria dar rolé

Com a playboyzada.

Fugi de casa na madrugada,

Deixei minha mãe preocupada,

Meu pai me procurou por todo lado.

Ele ficou descontrolado

Quando me viu caído num beco pichado,

Eu andava sempre trincado.

Sem-nome, sem-teto, sem-razão...

Tudo virou uma maldição.

“A vida é uma só,

Não seja um bocó,

Cuide dela e aproveite,

Pois a vida é uma só”.

Depois que a grana acaba,

Você faz qualquer coisa

Pra conseguir uma cheirada, um trago...

Lá vou eu de novo infernizado, tá ligado.

Não comia mais a minha pamonha,

Pra comprar dois gramas de maconha.

Aviãozinho, aviãozinho, aviãozinho

Carregando bagulho e saindo de fininho.

A humilhação mantém o barato,

Acabei fazendo mil tratos, mas fui pego no ato,

Numa cama de gato. Espancado pra entregar o patrão.

A trairagem não o leva pra cadeia,

Mas você acaba de bermuda e meia

A sete palmos do chão,

Se liga então?

“A vida é uma só,

Não seja um bocó,

Cuide dela e aproveite,

Pois a vida é uma só”.

A vida passa, passa corrida,

Então eu me pergunto,

Por que não escutei

A minha família querida?

Caí pra aprender a levantar,

É a melhor forma de lutar.

Agora deixo a lição, meu irmão.

Não faça o que eu fiz e seja feliz.

 
 
 

VOCABULÁRIO

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Aviãozinho: pessoa que leva e traz coisas.

Baque: queda, susto, desânimo.

Bagulho: drogas, bugigangas.

Bocó: bobo, tolo.

Descomunal: exagerado, desmedido.

Cama de gato: armadilha, cilada.

Camuflar: esconder, disfarçar, dissimular.

Caranga: carro, veículo.

Dar a letra: contar a história.

Embaçar: obscurecer, fazer perder o brilho.

Entrar numas erradas: ir para o mundo do crime.

Esquema X: coisa certa.

Fissurado: que possui uma forte obsessão por algo ou alguém.

Lábia: discurso para convencer, astúcia.

Maromba: pessoa muito forte que é viciada em academia e treinos.

Mano: aquele que é reconhecido como igual.

Playboyzada: rapaziada rica que usa roupas de marca.

Passar batido: escapar, passar despercebido.

Quebrada: lugar ou bairro.

Dar um rolé, rolê: dar uma volta, passeio, giro.

Se liga: presta atenção.

Sem eira nem beira: ser extremamente pobre.

Sangue bom: pessoa legal, gente fina.

Tá ligado: entendeu.

Tá osso: quando algo está difícil e não tem como escapar.

Tá me tirando: debochando, irritando. 

Trampar: trabalhar.

Trago: bebida.

Trairagem: traição.

Treta: confusão, briga.

Trincado: drogado, chapado.

Truta: parceiro, amigo.

 
 

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OBS: Produções realizadas após o estudo e debate de temas como: desigualdade social, preconceito, discriminação, drogas, violência, vida, sonho (oportunidades), mudança, entre outros.